Cama e mesa

A repórter se ajeitou no banquinho de madeira rente ao chão, enquanto Dalmira tentava controlar o choro para continuar seu relato. Levava ao rosto o lenço gasto e parava o olhar, perdido, a mirar o passado. Na face cansada e velha, apesar dos quarenta e poucos anos, escorriam as lágrimas expressivas dos sentimentos de uma Leia mais… »

Marcha para longe de tudo

Desistiu da indigência e saiu. Lenço amarrado à cabeça, chinelos de borracha e uma bolsinha minúscula com documento e uns trocados. Botou os pés fora de casa, sem intenção de voltar ao inferno diário do tráfico, da polícia arrombando portas e vidas, da pobreza sem esperança, do isolamento imposto pelo resto do mundo. Perdera o Leia mais… »

Efêmero

Sem hora nem dia certos, apenas chega. Na ruazinha do lado de casa, buzina seu carro preto – o mesmo carro preto. Jamais hesito, sequer penso. Num átimo estou perto, junto, ofegante, suplicante. Braço apoiado no encosto do banco do carona, carrega um sorriso maroto e olhar vívido. O paletó está aberto, o nó da Leia mais… »

Vestido de saco

Estavam na moda roupas confeccionadas em tecido de algodão, chamado pano de saco, branco. Antes de cortar o modelo, a costureira alvejava ainda mais, porque a peça deveria ser bem branquinha. Confeccionavam-se de tudo: shorts, calças, vestidos, batas, camisetas, bermudas e calças masculinas. A menina tinha nove anos e se apaixonou pela novidade. Os olhos Leia mais… »

Catarina

Sou Catarina Medeiros. Tenho noventa anos. Viúva, mãe de quatro filhos, treze netos, três bisnetos. Moro sozinha na estância que construí com meu marido. Por aqui, hoje, só eu e três empregados na casa, que a mantêm em ordem e a mim, até que finalmente, se houver mesmo esse Deus em que tantos acreditam, que Leia mais… »

Epitáfio em três versos

Onofre foi enterrado às nove horas de uma manhã fria e chuvosa. Alberto, ante o lóculo onde deixaria para sempre o amigo, sentiu a tristeza comprimir o peito. Não pela separação sem retorno, mas pela despedida em dia tão feio. “Onofre merecia partir com céu claro, de azul límpido, sol manso e brisa perfumada”, pensou. Leia mais… »

Regaço perverso

Ia àquele consultório toda semana. Era uma obrigação imposta pela família “conversar com o doutor Gilson”, como se aquele palavrório sem sentido fosse me fazer mudar de rumo em plena crise de rebeldia-pós-casamento-precoce-mal-feito-recém-terminado. A intuição nunca me enganou; a única pessoa em casa que tinha restrições ao doutor era eu. Ninguém sabia, mas eu passava Leia mais… »

Vitrine

Diante da vitrine ela cristaliza. Estática, vê a beleza estonteante exposta ali, diante dos seus olhos, que se arregalam, ao mesmo tempo em que ganham um brilho ansioso, misto de tentação e admiração aniquilantes. Ela não pode, não deve, porém uma atração irresistível a toma por completo. O corpo arrepia, as pernas amolecem, a boca Leia mais… »