Drusa de Ametista

As residentes da casa de repouso quase nunca experimentavam um dia diferente, uma novidade que escapasse dos cuidados diários repetitivos e das minguadas visitas. Eram poucas internas na pequena morada para mulheres, em que viviam de seus próprios silêncios e lembranças. Quando muito, faziam suas refeições na mesa da sala ou tomavam sol no jardim.

Celina chegou radiante com sua caixa de livros – iria ler para as idosas. Em contatos com colaboradoras da instituição, a jovem estudante universitária coletara preferências e escolhera os títulos. Embora nem todas aceitassem recebê-la duas vezes na semana, para ouvi-la narrar histórias, Celina ficou satisfeita com a aceitação inicial.

Às portas dos noventa anos, tia Dedé foi quem surpreendeu, ao aceder de bom grado as visitas de Celina. Com as articulações inflamadas e doloridas pela síndrome que

lhe invadiu o corpo a partir dos sessenta, não lhe agradavam os afagos e docilidades; não gostava de falação e não tinha trava na língua. Sem família e amigos, optou pelo recolhimento na casa de repouso, para escapar das penas do mundo e seria a primeira vez que deixaria de lado a rabugice, para se abrir a alguém de fora. Sempre fora solitária, mesmo rodeada de gente, porém a improdutividade a empurrou para a reclusão total e a distância de tudo o que lhe reportasse sentimento e sensibilidade. Apesar da retração no comportamento, curtiu a perspectiva de apreciar boa leitura, quem sabe com alguém que lhe levasse uma centelha de ânimo. Culta, inteligente e sagaz, supôs que poderia ser, no mínimo, divertido.

É com tia Dedé que se estabelece uma relação estreita, a partir do momento em que Celina apresenta a obra selecionada – Drusa de Ametista, de Maria Zelda Castanheiro, autora que conhecera recentemente. Celina apostou que o denso romance filosófico, publicado na década de setenta, suscitaria à mente de tia Dedé ao menos um bom papo, de acordo com a diminuta lista de interesses apontados por ela. Esquiva no primeiro dia, não demorou a criar com Celina uma amizade delicada, singela, fortalecida por um respeito amoroso.

– Você tem olhos de bola de gude, garota – dizia tia Dedé a uma Celina atenta, durante as longas conversas que ficaram comuns.

Tia Dedé não apenas se divertiu, como participou ativamente das sessões de leitura: fazia perguntas, propunha discussão, falava mal de personagens, pedia à Celina que tomasse nota do que debatiam sobre os dramas e reflexões do casal protagonista.

– Diabo de diálogo extenso e patético! Nada produtivo o que diz Ivan à Lúcia, não acrescenta nada. Tem excesso de divagação sobre a ametista, sem utilidade prática na história. O que você acha, Celina? Quero saber o que sai dessa cabecinha verde.

– O parágrafo anterior pede esse diálogo, tia Dedé, vamos retomar pra conferir.

– Anote, menina, anote…

A estimativa de uma hora e meia, no máximo duas horas para cada encontro, não foi cumprida. As tardes com tia Dedé não tinham teto para acabar. A velha senhora, arredia e aborrecida, mostrou-se envolvente e sedutora. Ocupou-se de alimentar o entusiasmo de Celina e provocar-lhe a curiosidade, promovendo verdadeiros colóquios literários, repletos de indagações, controvérsias, devaneios e a leitura das quinhentas e tantas páginas se estendeu por tempo maior que o previsto.

Celina tentou emendar outro livro, mas tia Dedé, sob pretexto de que precisaria decantar o volume de informação, despediu a moça com um ríspido “Depois…”. A dama da ranzinzice retornara ao seu lugar e deixou na jovem estudante uma semente em brotação. Celina mergulhou em mais créditos na universidade, as horas ficaram escassas e as visitas às idosas foram rareando. O trabalho voluntário também ficaria para depois.

A universidade e os sonhos de juventude estavam adormecidos lá atrás, naquele canto da memória em que se guardam imagens desfiguradas e nebulosas. Celina leciona e mora em outra cidade, trabalha em três turnos, precisa pagar contas e sobreviver do próprio trabalho. Ao chegar à sala de professores, encontrou um envelope no seu escaninho, remetido pela casa de repouso. “Como isso veio parar aqui?”. As mãos trêmulas e úmidas que rasgaram o papel, encontraram as notas do livro que ela leu para tia Dedé, em inúmeras folhas manuscritas. No fundo do envelope havia um pendrive, em que constava um arquivo de áudio. Era uma gravação de tia Dedé, pedindo que Celina lançasse uma nova edição de seu livro, Drusa de Ametista, revista e atualizada, agora depois de sua morte, com as devidas alterações anotadas e exaustivamente discutidas. A dedicatória exclusiva seria para Celina Ambrósio, “a menina dos olhos de bola de gude provou à Maria Zelda que é possível renascer na velhice”.

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