Subversiva

Na saída do banheiro do hospital passaram-lhe um folheto, com informações sobre direitos não assegurados; o que o governo escondia e a imprensa não podia noticiar; e quem denunciava era preso e desaparecido. Sabia algo a respeito, porque ouvira do irmão, antes do sumiço. Por onde andaria? A pergunta veio à mente junto com um arrepio e o ato instintivo que levou o papel dobrado para dentro do sutiã.

O contato foi inusitado para Eulália, que nunca experimentava nada diferente em sua jornada de trabalho: acordava às 4h30, despertava Joana, aprontava tudo para que a filha chamasse e cuidasse dos irmãos menores e fossem para a escola. Limpava e tornava a limpar enfermarias e banheiros e só os veria à noite, quando precisava dar conta de atenção, carinho, colo, em meio ao preparo do almoço do dia seguinte e montagem das marmitas. Colocava todo mundo para dormir e ia para a cama.

O sentido da vida era garantir o sustento e os estudos das crianças. Tinha pouca instrução – o bastante para ocupar vaga de servente – e não alcançava o entendimento da parte que deveria lhe caber, porém se indignava com as faltas na sua mesa e as sobras nas mesas de tantos outros. Nas missas da igreja da vila, o padre citava o Evangelho de Jesus Cristo, pregando o amor ao próximo, a igualdade, a justiça, mas na prática não era assim e Eulália sabia que aquilo não estava certo: o dinheiro não dava para o mês, sofria com assédio no emprego, não havia como reclamar.

Mostrou o folheto ao marido e queimou-o. Silenciaram. Mais uma vez, calaram.

– Meus filhos! Joana! Meus filhos! O que estão fazendo com a gente?!

As lágrimas colaram no rosto o tecido do capuz justo que trazia à cabeça, enquanto escutava os ruídos de carros que arrancavam com fúria. Interrompeu os soluços, diante de ameaças contra suas crianças, caso não se calasse. Chorou em silêncio durante o demorado trajeto, o tempo que durou o estupro de Joana, logo que a mãe foi arrancada de casa. Jamais teria notícias da família.

Eulália teve os cabelos cortados rente ao couro cabeludo, raspado em alguns pontos da cabeça. Não quer notícia do seu irmãozinho? Os seios queimados por cigarros. Quero nomes, fala! Mamilos torcidos com alicate. Já lhe contaram que não vai sair daqui viva? Choque na vagina, no ventre, no ouvido. Vou trazer surpresinha, até você abrir a boca! Cadeira do dragão, nua e molhada. Olha, olha… está se mijando feito um bebê! Estupros. Baratas no corpo ferido. O rosto desfigurado por espancamento. Vaca imunda!

O carro se deslocava devagar, desacelerava, avançava de novo. Deu várias voltas e freou bruscamente. Duas portas se abriram e Eulália foi puxada para o chão. Duas portas bateram com violência e o carro arrancou. Sumiu como se não tivesse existido. Sem forças para levantar, Eulália se deixou ficar, sentindo a terra sob as mãos e o cheiro de mato molhado depois da chuva. Puxou o capuz, hesitante. Observou a escuridão úmida, celebrada pelas vozes dos grilos e sapos, sentiu o frio que é frio de verdade, o vazio do breu. O abandono e a solidão que seriam sua companhia para sempre.

Conto publicado originalmente na 3ª Coletânea de Prosa do Mulherio das Letras – Sou Mulher, Logo Existo! Amor, Liberdade, Luta e Resistência – ABR Editora/2019

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