A intensa jornada de uma mente ansiosa

Leio um livro, uma narrativa prazerosa. Estou dentro da história, bem distante da realidade e de repente o coração acelera. Dá uma acelerada bruta. Dois segundos e logo começa a voltar ao normal. Mas não retoma a normalidade esperada. A respiração é alterada; o diafragma não se mexe. Tiro os olhos do livro, recosto-o no peito e tento inspirar sem pressa. O ar entra apertado, para na garganta. Nesse instante as pernas amolecem, como uma geleia. O estômago se contorce e o enjoo chega junto.

Saio para a caminhada diária e na volta tenho de passar no supermercado. Levo o cartão e os óculos – não enxergo uma etiqueta de preço sem eles. Caminho tensa, os músculos hirtos, o fôlego me abandona e o motivo é esse compromisso em seguida. Uma aflição que se repete, quando sou surpreendida por uma tarefa que não estava no script, ou quando o roteiro da jornada é composto por cenas em excesso, além da idealizada capacidade de realizá-las. Ou, pior: crio um tormento com uma lista fabulosa e gigante de obrigações a cumprir e ao baixa-las para o papel, a fim de elaborar uma mínima ordem, constato se tratarem de apenas duas.

Passei a carregar comigo para a hora do banho a minha caixinha de som. Uma atividade que sempre foi rápida e prática passou a me causar pânico. Sinto medo dos pensamentos que me assolam embaixo do chuveiro. Nada aterrorizantes, porém é comum que me roubem o ar, provoquem impressão de asfixia e num átimo estou tiritando. A música alta desvia a atenção sobre mim mesma e então me transporto dali, exercito outras imagens, obrigo-me a cantar.

À noite sou acometida por uma sensação de pavor; o fim do dia é uma morte ou a afirmação da finitude; preciso executar com diligência a higiene do sono, para não sucumbir ao medo. Deito, fecho os olhos, no entanto o interruptor não desliga. Todos os projetos, desejos, diálogos imaginários, raivas, compromissos a dar conta, agendas ocultas, vêm comigo para a cama. Uma ideia junta com outra, que junta com outra, que junta com outra e mais outra e ainda outra, num enlaçamento contínuo. Pernas e pés se movem por vontade própria, até que o coração faz um disparo. Aspiro, como num susto, e torno à tentativa de desplugar. Mudo de posição. Mudo de novo. Decúbito dorsal, lateral direito, lateral esquerdo, perna dobrada, esticada, as duas abertas, uma em cima do marido, braço pra cima, dobrado, embaixo do travesseiro, mão no queixo, no pescoço, fechada, aberta, de bruços não dá, a mama dói. A madrugada avança, o ronco ao lado me provoca: – Eu durmo profundamente enquanto você sofre.

Acordo de madrugada para ir ao banheiro. Viro-me de lado, levanto o corpo e sento para calçar os chinelos. Minha cabeça, amodorrada, irracional, quase inconsciente, pensa sozinha: – Você vai morrer. Vou ao banheiro e retorno ao travesseiro com essa insistência na mente. Bebo água, deito, custa-me dormir.

Sonho demais. Sonhos realísticos. A noite inteira. Participo de perseguições policiais; viagens planetárias; sequências de ação, como em filmes; vou a muitos lugares do país e do mundo; conheço pessoas e convivo com gente que nunca vi; falo outras línguas; canto e recito poemas em outras línguas; revejo amigos e parentes mortos ou sumidos; toco instrumentos musicais; volto no tempo; tenho relações amorosas com homens desconhecidos. Acordo esgotada. Permaneço vivendo no último sonho. Demoro a ‘funcionar’. Não quero que falem comigo agora.

Tenho coisas a fazer. Trabalho, trabalho, trabalho. Casa, casa, casa. Bichos. Plantas. Encontros. Ações rotineiras bailam no cérebro, sem se disciplinarem. Embolam-se. Visualizo um monte de nós. Tento fazer planos, nada acontece. Assisto ao movimento diante dos meus olhos, atônita e inerte, cristalizada sem concretizar nem uma atividade. Anseio fazer mais. Tento escrever, para me organizar. Também nada acontece. Tento escrever… tento escrever… tento escrever…

4 thoughts on “A intensa jornada de uma mente ansiosa”

  1. Intenso!
    Estou até com taquicardia!
    Excelente crônica, que arremessa o leitor dentro do olho do furacão de uma mente a mil por hora.
    Parabéns!

  2. Começo a ler a crônica, quero saber o título. A ansiedade faz a personagem parar. Ávido, continuo a ler, faço uma lista mental do que poderia ser as duas tarefas que fez a personagem deixar o livro.

    Percebo que estou ansioso. Nos meus sonhos em geral sou persguido e acordo sem ar…a jornada intensa da personagem ressoa….

    Divina Crônica, viva, intensa….como são os textos de Giovana Damaceno!

    Agora, como desacelerar para chamar o sono? Dorne-se com um barulho destes?

  3. Excelente. Engajada e contundente. Uma descarga no HD. A outra forma de alívio é ver a comédia que encerra cada drama e, como protagonista, passear entre os fatos provocando-os.

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