Silêncio abafado

Há um silêncio que me incomoda, a ponto de provocar mal-estar. Um tipo de silêncio abafado, como se houvesse no ar uma pressão qualquer e, dessa pressão, um som sem som se fizesse ouvir. Já escrevi sobre dias frios, sobre o silêncio dos dias frios. Lembro bem daquela manhã – estava em um banco de praça, meu filho brincava por perto. Era um dia frio e silencioso. O mesmo silêncio abafado. Diria que um silêncio acachapante. O silêncio do frio. As pessoas se encolhem, se recolhem, as ruas se esvaziam.

Tantos anos depois, ainda que goste muito – e cada vez mais – de silêncio, me desconforta esse tal silêncio abafado das tardes frias. Nem passarinho canta. Bem longe soa um pio fraco que logo some. Lá de mais longe vem um latido e mais outro latido. Em alguma cozinha louças se esbarram ou caem ou quebram. Um ônibus passa na avenida principal.

Tomo uma xícara de café, sozinha à mesa, atenta a esses ruídos distantes e abafados pelo silêncio da tarde fria. Respiro o vapor do café. Sinto uma tristeza. Passeio no passado.

O cheiro da tarde fria de silêncio abafado lembra o café da infância atravessando o coador de pano e enchendo o grande bule. Lembra o aroma do pão quentinho na cesta do padeiro de bicicleta, que buzinava subindo a rua. Lembra os finais de tarde em que chegava do colégio junto com a noite e juntava o que havia nas panelas num delicioso mexidão: arroz, pedaços de angu, caldo de feijão, ovos.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho lembram o banho com a luz do sol fraco no basculante do banheiro, a camisetinha de algodão com paletó de flanela por cima e o pescoço branco de talco perfumado.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado lembram a horta no quintal e o canto do galo no galinheiro. Galo disciplinado, jamais perdia a hora. O canto da tarde encerrava o dia, a brincadeira. O canto da manhã… ah, desse eu não lembro.

As tardes frias de silêncio abafado com cheiro de café e pão quentinho e talco perfumado e canto do galo no galinheiro são tempos que fixaram morada eterna na memória, mas não são saudosos. Não os recordo como tempos felizes. Eram dias e tardes e noites melancólicos. Eram dias duros, de uma vida dura, das obrigações rigorosamente cumpridas, para garantir a sobrevivência. Eu era criança, não sabia de nada, mas sentia peso no ar. Sentia a vida sendo empurrada pela pressão acachapante das carências impostas pela vida. E o silêncio daquelas tardes é o mesmo que ouço agora, com os mesmos cheiros e ruídos. A mesma melancolia. Tomo mais um gole de café.

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