Velhos são gente, não anjos

As tradições familiares, por afeto ou pressão histórico-cultural ou por influência religiosa, generalizam incoerências. Uma delas é afirmar que todo idoso é sábio, que devemos valorizar e respeitar a sabedoria dos mais velhos, ouvi-los e nos referenciar em seus atos, seguir seus conselhos, aprender com eles. Só que idosos são seres humanos, têm limitações, falhas, possuem bom ou mau caráter, têm seus lados sombrios. Apenas o avanço da idade não é suficiente para que se promova uma mudança de índole automática.

Não é porque tem cabelo branco e 60+, 70+, 80+ e tantos que se torna sábio de repente. Sabedoria, no sentido atribuído aos idosos em geral, requer um bocado de desprendimento, mais uma boa dose de equilíbrio, entendimento das mazelas do mundo, aceitação das diferenças, serenidade, honestidade consigo e com os outros, preocupação e ocupação com as necessidades alheias, não com o que os outros fazem de suas vidas. Mesmo sem estudo formal, aquele que carrega a sabedoria consigo possui no coração e na alma predicados que o torna uma boa referência, pela sensatez, lealdade ao praticar o que prega, simplicidade e objetividade finas, que sempre surpreendem a quem tem o dom de complicar. Sabedoria é para poucos.

Ao meu redor, por exemplo, sem fazer esforço de memória, reconheço ao menos meia dúzia de velhos e velhas canalhas, que só enxergam o próprio umbigo e querem que o resto do planeta de exploda – os que podem, já colaboram para que o planeta se exploda mesmo. Gente que não pensa duas vezes ao apontar a “bichinha” e fazer chacota ou dizer que a pessoa de pele negra “nasceu depois das 18h”. Gente que se dedica a olhar e criticar o gordo, o feio, o velho assanhado, a velha desavergonhada, enquanto suas próprias escolhas são sempre perfeitas e de acordo com regras “da boa educação e do bom comportamento e da moral e blá-blá-blá”. São frequentadores fiéis dos templos religiosos, de qualquer denominação, fazem questão de dar esmolas, mas não querem pobre e preto por perto, preto é sempre bandido, população de rua serve pra emporcalhar a cidade e atravancar o caminho. São idosos maus, maledicentes, rancorosos, preconceituosos, racistas, egoístas, que vivem de alimentar ódio. Sim, canalhas também envelhecem, né?

Há vovozinhos fofinhos estuprando netas e netos. Há vovozinhas lindinhas e educadas que não “dão a mão a preto”. Há senhorinhas muito queridinhas que não permitem que suas diaristas usem seu banheiro ou que comam sua comida. Há senhoras “de respeito na sociedade” que literalmente escravizam pessoas. Há senhorzinhos passando a mão em bunda de mulher dentro dos ônibus. Há senhores que alcançam poder, fazem fortuna, constroem patrimônio, família, redes de amigos, ganham prestígio, mas se constituíram no crime e no crime permanecem. Há velhinhos e velhinhas com cara de coitadinhos que tornaram as vidas de suas famílias um inferno, porque são tirânicos. Há velhinhos e velhinhas a arruinar psicologicamente filhos e netos, do alto de suas cadeiras de rodas.

Sabedoria dos mais velhos é uma expressão que não cabe na realidade. Velhos são gente, não anjos. Há os gente boa e os que não são. E os calhordas estão por aí, aos montes, se esbarrando uns nos outros. Basta olhar em volta para vê-los se exibindo, descaradamente, inclusive carregando a responsabilidade de milhares de mortes nas costas. Quantos você conhece?

2 thoughts on “Velhos são gente, não anjos”

  1. Inteiramente de acordo, Giovana Damaceno. O envelhecimento do corpo não envelhece o caráter, só acentua. Se é humanista, fica mais profundamente humanista, se é canalha, canalha e meio. Excelente crônica. Gosto dessa sua franqueza destemida.

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