Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende

Se há algo de que não gosto e fujo ligeiro é de padrões. O que for quadradinho, que todo mundo faz igual, porque tem que ser assim, porque só é aceito desse jeito, pulo fora. A vida é diversa e o modo de passar por ela não deveria ser diferente. De descrevê-la, idem.

Há um padrão muito divulgado, principalmente nos cursos de escrita criativa, de que os romances devem ter o formato de narrativa preconizado por Aristóteles – o da jornada do herói: o mocinho, que passa por um conflito, e mais outro, resolve o tal conflito e a história acaba. Esse seria o modelo vendável, aceito pelas editoras, martelado na cabeça de autores iniciantes, como se fosse uma fórmula mágica. Não é.

O livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 2016), de Maria Valéria Rezende, escapa desse padrão. Não exacerba a heroína – a protagonista, Maria -, não tem um clímax de tirar fôlego, não há os tais conflitos. É uma narrativa cadente, quase poética, que vai levando o leitor, lenta e deliciosamente, junto de Maria, pelas paragens áridas do sertão nordestino. Maria Valéria também muda o rumo da prosa comumente entregue pelas editoras, ao nos revelar uma parte escondida do Brasil, ao narrar a rotina árdua lá do cantão que ninguém vê, ninguém sabe, nem quer saber, um país oculto aos nossos olhos. Com “Outros Cantos”, Maria Valéria furou o cerco e recebeu o Prêmio São de Literatura 2017.

Ainda que se trate de romance ficcional, os personagens retratam o verdadeiro rosto do Brasil, da gente invisível, que está ao nosso redor, vinda de não sei onde, que perambula nas ruas das grandes cidades, solapada no subemprego. Ou está isolada nos sertões, em regiões tão hostis, que mais parecem um universo paralelo. Emocionou-me Fátima, pela altivez na condução dos dias, com a bravura comum ao sertanista; quanta alegria a dos que regressam para casa, depois da aventura na cidade grande; quanta fé envolve o povo de Olho D´água, conformado e resignado, sabendo que não deve esperar nada de ninguém, além de Deus, de Nossa Senhora do Ó e de São José. Chorei com a história de Parafuso.

A narrativa de Maria Valéria é direta, sem rodeios nem floreios, sem preocupação demasiada com o texto isso ou o texto aquilo. Ela vai direto ao ponto, sem rebuscamentos, sem pompa ou pretensão. Relata com honestidade o que se desenrola no cenário que criou, com objetivo claro de descortinar a realidade de um canto esquecido do Brasil.

Sobre o entendimento de alguns de que “Outros Cantos” se apresenta como uma autobiografia, não percebo que Maria Valéria tenha caído nessa armadilha. Talvez um toque de autoficção, visto que se utiliza da própria experiência – riquíssima – para criar sua história e compor seus personagens.

Para terminar, preciso dizer: quem não gostou, pode não ter entendido a proposta ou estar aprisionado ao modelo herói, conflito, solução de conflito. Sugiro sair do quadrado e conhecer o Brasil. Pelas mãos de Maria Valéria é um bom passeio.

1 thought on “Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende”

  1. Uma bela resenha. Outros Cantos- li, reli.
    “Numa das paradas deste ônibus vi entrar uma mulher com dois meninos, vestidos em suas calças jeans, seus tênis e camisetas com uma besteira qualquer escrita em inglês e figuras de desenhos animados japoneses. Suas caras não enganam, são sertanejos como eram aqueles, mas já não têm a barriga inchada, a pele encardida e arranhada como aqueles de há trinta e cinco anos atrás. Minha razão me diz que estes de agora vivem melhor e devo alegrar-me por isso, mas meu coração já não se enternece tanto como daquela vez, diante daqueles que eu acreditava que precisavam de mim. “
    Maria Valéria Rezende. Outros Cantos. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. p.17
    Bonito, né?

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